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Muros que não protegem ninguém: um olhar sobre cidades muradas

Os muros acompanham a história da civilização com a proposta proteger e assegurar a vida dos que estão de um dos lados, o “de dentro”. Para o arquiteto e urbanista doutor em Sociologia Napoleão Ferreira da Silva Neto, não existe cidade, muito menos democracia. O professor da Universidade de Fortaleza (Unifor) e presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Ceará (CAU/CE) acredita que o muro é argumento para um ato simbólico de separação, distinção e opressão, presente no atual modelo irracional de cidades.

Napoleão esteve em Porto Alegre para o 21º Congresso Brasileiro de Arquitetos (CBA) e falou sobre cidades muradas para uma plateia curiosa e interessada na Sala da Música do Multipalco do Theatro São Pedro. O professor destacou que o próprio horizonte é um muro – “Não sabemos o que há do outro lado” – e trouxe exemplos de muros emblemáticos em diferentes lugares do mundo.

A ineficácia do muro

“A ineficácia das muralhas é lendária do ponto de vista de defesa”, disse, ao comentar sobre a Muralha da China: “Ela tem muito mais do que a extensão da BR-116, que começa em Fortaleza, no Ceará, e termina em Jaguarão, no Rio Grande do Sul, e nunca funcionou como defesa. Trata-se de um grande monumento inútil, que ao mesmo tempo é a razão de ser da China: aqui dentro somos chineses, lá fora estão os bárbaros”.

A ideia de nação, segundo o professor, é moderna e imaginada. “As pessoas se imaginam parte de uma comunidade, mas elas jamais conhecerão todos, por isso uma nação precisa de símbolos, para ser reconhecida”, explicou.

A Muralha da China e seus 21.196 quilômetros. Crédito: Severin.stalder

O arquiteto também citou a Muralha de Adriano, que separa a Inglaterra da Escócia; os muros das cidades medievais; a função histórica dos muros em fuzilamentos; o muro como representante da presença do Estado; e, na modernidade, a ideia de “muros da razão”; o Muro de Lima (Peru); o Muro de Berlim (Alemanha); o Muro de Belém (Cisjordânia); e, mais recente, o muro entre Estados Unidos e México.

É entre os muros que fervilha e se forma o pensamento delinquente. O sistema prisional não atinge os objetivos que são expressos no papel, porque a pena criminal não é para o que ela diz que é, serve apenas para reforçar a consciência coletiva e burra sobre o que é certo ou errado perante a sociedade. Antigamente, o adultério feminino era crime e a escravidão era legal. Portanto, a pena configura uma afirmação de valores, como um muro de fuzilamento”, afirmou Napoleão.

O inconsciente coletivo

O arquiteto cita Carl Jung para explicar como o inconsciente coletivo atua e cria símbolos que são reproduzidos na ausência do pensamento crítico: “O inconsciente coletivo se manifesta através de arquétipos – símbolos são manifestações de arquétipos. Na vida intrauterina, o mundo é silencioso e entra em sintonia com a ideia de muro: as pessoas querem morar em condomínios fechados, ‘protegidos’, é instintivo”.

Napoleão acredita que a racionalidade pode destruir os muros e a ideia de status social, poder imobiliário e de consumo que seguem separando, segregando, e não protegendo. “Cada um de nós é como um tijolo no muro: nenhum é igual ao outro. Nós somos tijolos, mas nós temos cabeça e autonomia de pensamento. A partir da razão e da autonomia de pensamento, somos capazes de demolir os muros e não ser mais um tijolo na parede”.

Muros ao redor do mundo também foram tema de reportagem especial da Folha de S.Paulo. Clique aqui e saiba mais.

A cidade está morrendo

O professor Carlos Vainer, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ippur/UFRJ), também esteve em Porto Alegre para o 21º CBA e falou sobre a morte das cidades. O sociólogo define cidade como lugar de encontro do diverso, onde a condição humana se realiza de forma plena em sua diversidade.

Para o coordenador da Rede de Observatórios de Conflitos Urbanos, fatores como segregações, vigilâncias e densidades seletivas por raças e classes sociais – muros sociais – resultam em crise urbana. A cidade deixa de ser cidade, pois perde seus elementos característicos e o senso de tolerância com as diferenças.

Vainer acredita que as utopias podem ser a salvação urbana, pois criam esperança em um mundo melhor: “Utopizar é experimentar o impossível como possibilidade”. Ao citar as ocupações em universidades e a “praia” de Belo Horizonte como exemplos, concluiu: Nossa tarefa é resistir na cidade, pela cidade, para enfim, reinventarmos a cidade”.

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