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Artigo: 100 anos do espírito de uma época

No último sábado (27/04), o jornal Correio do Povo publicou o artigo “100 anos do espírito de uma época”, do presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/RS), arquiteto e urbanista Tiago Holzmann da Silva, em alusão ao centenário da Bauhaus, escola alemã de artes, design e arquitetura. Confira o texto na íntegra:

Zeitgeist é uma palavra de origem alemã utilizada por críticos e pesquisadores para definir períodos ou movimentos culturais. A tradução mais coerente é “espirito da época” significando os comportamentos e tendências de um determinado período histórico. Uma festa Balonê representa o zeitgeist dos anos 80 em suas músicas, vestimentas, penteados, frivolidade. Os movimentos de contracultura de maio de 68 representaram o “espírito da época” de contestação política e comportamental, mas também no visual, no jeito. É o clima do momento principalmente em seus aspectos sócio culturais. A origem do termo remonta ao século XVIII e foi consolidada por Hegel que afirmava que a arte de uma época era fruto da cultura dessa época, já afastando o artista da arte clássica em direção à modernidade, então nascente.

Comemorando 100 anos agora em 2019, a escola alemã Staatliches-Bauhaus representou de forma exemplar o espirito de sua época. Fundada em Weimar em 1919 e fechada pelos nazistas em Berlim em 1933, a Bauhaus, como é reconhecida, foi uma escola de artes, design e arquitetura com uma proposta que, ainda hoje, pode ser considerada inovadora e de vanguarda. Rompendo com o ensino clássico, buscava estabelecer uma relação direta entre a arte e a indústria, diluindo as fronteiras entre expressões artísticas e abrigando diversas vertentes experimentais. A Bauhaus consolidou o termo “funcionalismo” definindo que uma obra de arte deve ter um proposito, resolver uma função, e sua concepção integrar a criação artística com o processo produtivo e sua viabilidade de fabricação em escala. Em arquitetura, o funcionalismo passa a significar a racionalização da construção, a adoção de padrões universais, a eliminação de todas as partes que não tenham uma função determinada e a possibilidade de construção em larga escala otimizando procedimentos e materiais. A arquitetura proposta na Bauhaus era uma reação às edificações recheadas de elementos decorativos e citações estilísticas que imitavam a arquiteturas de outras épocas.

O período do entre guerras na Europa foi certamente um dos mais férteis e produtivos de toda a história da arquitetura. As artes plásticas, principalmente a pintura, já haviam materializado com energia as ideias de vanguarda ainda antes da Primeira Guerra. Logo depois, a arquitetura, alimentando-se nas artes plásticas, avançou e produziu experiências inovadoras e inéditas, abandonando definitivamente a arquitetura clássica e acadêmica que foi suplantada por movimentos diversificados, mas conceitualmente coerentes como o construtivismo russo, o futurismo italiano, o De Stijh holandês, o racionalismo francês, que influenciaram ou estiveram presentes na Bauhaus.

A tradução literal é “casa de construção”, mas suas atenções englobaram, além da arquitetura e das artes plásticas, o design de mobiliário e de objetos domésticos, de cinema, fotografia, teatro, até figurinos, têxteis, tipografia e publicidade, buscando realizar o sonho da “obra de arte total”, defendida pelo arquiteto alemão Walter Gropius, fundados da escola e seu diretor até 1927. Com apenas 36 anos, em 1919, Gropius era um dos professores mais velhos de um grpo que rondava os trinta anos e que tinha como decano, provavelmente, o artista russo Waaily Kandinsky, então com 43 anos e já reconhecido como um dos criadores da arte abstrata. O arquiteto alemão Mies Van Der Rohe, que transformou-se em um dos ícones do movimento arquitetônico International Style, também foi professor e o ultimo diretor da escola, entre 1929 e 1933. Outro destaque era o húngaro Marcel Breuer, grande projetista de mobiliário, foi um dos primeiros arquitetos formados na escola e depois também professor. Outros artistas renomados deram aulas na escola: Paul Klee, suíço-alemão, que desenvolveu a teoria das cores; László Moholy-Nagy, húngaro, influenciado pelo construtivismo e suprematismo; Hannes Meyer, diretor da escola na fase intermediaria entre 1927 e 1929; Oskar Schlemmer, Johannes Itten, Lyonel Feininger, Josef Albers, Gunta Stölzl e outros. A primeira dase, sob comendo de Gropius, foi basicamente dedicada à experimentação e integração das artes. A segunda, já na cidade de Dessau, aprofundou o caráter investigativo em habitação social. A última fase, com Mies Van Der Rohe no comando, foi uma transformação em escola de arquitetura.

A Bauhaus esteve alinhada com movimentos políticos progressistas. Não por coincidência, em sua primeira fase entre 1919 e 1925, a escola esteve localizada em Weimar, berço da republica na Alemanha, que assentou as bases do estado de bem-estar e da social democracia moderna, majoritariamente adotada na Europa ocidental após a segunda guerra. A mudança da escola de Weimar para Dessau, em 1925, e para Berlim em 1932, deveu-se principalmente à ascensão do nazismo e a perseguição que a escola e seus professores e estudantes passaram a sofrer. Nesse sentido, o espirito da época, parecida ser muito mais o conflito entre as visões de mundo que acabou levando à Segunda Guerra, do que a experimentação e a diversidade que a escola propunha. A perseguição dos nazistas e a repressão a qualquer contestação ao “pensamento único” levou ao fechamento prematuro da escola. Durante 14 anos, a experiência da Bauhaus foi tão relevante que o que foi gerado nesse período ainda repercute com muita presença.

100 anos se passaram e o espírito de nossa época parece ser novamente o do conflito. Por um lado, a repressão à diversidade, o orgulho da ignorância, a institucionalização da mentira, o elogio ao totalitarismo e a perseguição à intelectuais, professores e artistas. De outro lado, a resistência e a defesa da diversidade, da democracia, da tolerância, das minorias, das artes, do meio ambiente, da cultura, da educação. Enfim, me parece que que hoje a Bauhaus também estaria sob risco de fechamento. É o Zeitgeist.

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